A mobilidade urbana e ciclovias: um balanço e uma agenda

(A propósito do triste e absurdo atropelamento de ciclistas em Porto Alegre, segue texto publicado originalmente no indispensável RS Urgente. Para saber mais sobre o movimento Massa Crítica, clique.)

Lucas Panitz (*)

– Fazia tempo que a gente não sentia isso não né? Essa coisa da cidadania…

Foi o que disse uma senhora grisalha a seu marido, junto com a filha adolescente, voltando no ônibus Santana, após saírem da manifestação em apoio aos ciclistas feridos na sexta-feira passada. A manifestação, que saiu do Largo Zumbi dos Palmares e percorreu as ruas José do Patrocínio, Luiz Afonso, Lima e Silva e Borges de Medeiros, contou com milhares de manifestantes, que saíram à pé, de bicicleta, de skate e patins, e terminou em frente ao Paço Municipal. O evento, pacífico, foi uma prova que os porto-alegrenses conseguem ser tão civilizados quanto o infrator foi irracional. Não sem alguns momentos de fúria de motoristas que cantavam pneus, roncavam alto os motores de carros e motos, mostravam as carteiras de habilitação ao alto, provando que existem outros espécimes do Sr. Ricardo, e que se não fosse a presença massiva de agentes da EPTC e de dois helicópteros sobrevoando a área, há pouca dúvida se mais alguns ciclistas teriam sido atropelados. Todos eles foram devidamente aplaudidos pelos manifestantes, ganharam alguns apitaços e a passeata prosseguiu. Por isso, não faltaram músicas que exprimissem de forma bem humorada a insatisfação com a brutalidade e opressão a que os ciclistas são submetidos diariamente: “relaxa meu amor, relaxa, tem gente pedalando na cidade baixa”, “bicicleta: um carro a menos”, “mais amor, menos motor”. Não faltaram também pessoas que, das janelas dos prédios, nos comércios, nos ônibus, e ate mesmo nos carros, exprimissem seu apoio em favor dos manifestantes, mostrando que a insatisfação com o ocorrido é generalizada.

À guisa de discussão, não posso deixar de ensaiar uma agenda e alguns cenários futuros que deverão estar na pauta dos cidadãos e da administração municipal, se não quisermos legar o assunto ao ostracismo. Os temas são muitos: meio ambiente, mobilidade urbana, saúde, esporte, entre outros. Vou me concentrar apenas no que tange a estruturação e integração de um sistema cicloviário em Porto Alegre como forma de mobilidade urbana. São observações provisórias, que necessitam de outros interlocutores para que o debate prossiga.

1) Porto Alegre, sabidamente, possui algumas ciclovias fixas, estruturadas sobretudo para o lazer, localizadas ao longo da orla do Guaíba – na Av. Beira Rio, em frente ao Barra Shopping e na Av. Guaíba em Ipanema. Tal ciclovia carece ainda de ligação entre seus trechos, para que o trajeto entre o Gasômetro e a praia de Ipanema possa ser percorrido com a devida segurança.

2) Os corredores de ônibus de algumas avenidas e o “Caminho dos Parques” se constituem em ciclovias intermitentes: funcionam somente aos finais de semana, igualmente para o lazer. O último caso liga os principais parques da cidade – Moinhos de Vento, Redenção, Harmonia e Marinha do Brasil. Inaugurada em 2001, em parceria com um banco privado, essa ciclovia encontra-se completamente obsoleta por falta de manutenção e fiscalização dos agentes de trânsito que fazem vistas grossas aos carros que usam seu espaço como estacionamento. A manutenção dessa ciclovia, diga-se, é baratíssima, pois sua delimitação é feita somente por uma faixa vermelha junto ao meio-fio das ruas e algumas placas indicando os caminhos a percorrer.

3) Outro ponto fundamental é ser discutida a implantação de uma ciclovia que inicialmente contemple o centro da cidade, as Universidades, os grandes colégios e as áreas de trabalho (repartições públicas, áreas comerciais, etc.), e uma progressiva ramificação desse sistema em direção aos bairros. Isso permitirá em um primeiro momento uma mobilidade segura no espaço urbano mais denso, aonde o perigo de acidentes envolvendo carros e ciclistas é maior, e avançar incluindo outras áreas comerciais secundárias e residenciais no sistema. O aproveitamento dos canteiros da Av. Ipiranga, por exemplo, poderá ser casado com um projeto – também inadiável – de revitalização das margens do Arroio Dilúvio (bandeira de todos os partidos políticos em época de eleição, nunca efetivado na prática). A EPTC e outros órgãos de planejamento municipal contam com arquitetos-urbanistas, engenheiros de tráfego, geógrafos e sociólogos que possuem capacidade técnica de avaliar experiências de ciclovias no mundo e propor novas idéias para a sua implantação, medir seus impactos e monitorar suas consequências. Além disso, convenhamos, a implantação de uma ciclovia requer recursos ínfimos se comparada a qualquer outra obra de trânsito.

4) A liberação de um vagão de trem para os ciclistas é prática comum na Europa, em cidades como Madrid, Barcelona e Bordeaux. Em Porto Alegre há bem pouco tempo atrás, era permitido carregar bicicletas no Trensurb somente um domingo ao mês. Além disso, suportes para bicicletas na parte dianteira externa dos ônibus já foram experimentadas em Porto Alegre, e poderão ser re-implantadas, tanto na cidade, como em municípios vizinhos. As duas medidas facilitariam a integração dos municípios da região metropolitana e bairros distantes com a capital.

Fazia tempo que não se via em Porto Alegre uma manifestação que agregasse tantas pessoas e que, embora, não tenha sido gestada por partidos políticos ou organizações de classe. Estudantes secundaristas e universitários, professores, funcionários públicos, mães, pais, filhos, artistas e alguns vereadores – todos estavam lá, exercendo seu direito de ser ouvido. E Porto Alegre ouviu. O quanto isso terá repercussão, só o tempo dirá, e vai depender da organização e da ação coletiva e individual de cada um que lá esteve presente e apoiou a causa como pôde. O grupo Massa Crítica, pela sua recente exposição, deverá ter um acréscimo considerável de novos integrantes. Além disso, se prevê que mais ciclistas agora transitem pelas ruas; acidentes e novas tentativas de homicídio deverão ser vigiadas constantemente e seguramente não serão toleradas.

Os efeitos políticos do que ocorreu na sexta-feira passada foram sentidos na Internet. Milhares de pessoas pelo Brasil manifestaram sua indignação quanto ao tratamento inicial da polícia e da imprensa local, que subestimaram a força das redes sociais e do jornalismo independente como formadores de opinião – exemplo daquilo que alguns chamam de cidadania 2.0. Foram muitos os que contataram, via Twitter e Facebook, o prefeito, o governador, parlamentares e jornalistas, exigindo respeito na condução do caso. A resposta foi imediata: de um dia para o outro mudou-se o tom na polícia e nos noticiários, refutando – ainda que timidamente – a versão de legítima defesa, e o Ministério Público ingressou com pedido de prisão preventiva do motorista, alegando seu histórico de infrações.

Todos esses fatos levam à compreensão que a replicação do ocorrido, por meio de notícias e manifestações individuais, além dos protestos em diversas cidades do Brasil e da América Latina em solidariedade aos ciclistas envolvidos, foi de fato eficaz até agora. O geógrafo e pensador brasileiro Milton Santos, no seu livro A Natureza do Espaço, nos ensina sobre a importância do evento, como categoria para a geografia e outras ciências sociais. Diz ele que “se considerarmos o mundo como um conjunto de possibilidades, o evento é um veículo de uma ou algumas dessas possibilidades existentes no mundo”. Por isso, continua Santos, “são os eventos que criam o tempo, como portadores da ação presente” e completa ainda que “os eventos são, pois, todos novos. Quando eles emergem, também estão propondo uma nova história”. Quando uma manifestação como essa que vimos preenche um espaço, ela territorializa uma idéia e propõe a mudança do estado das coisas: “na verdade, os eventos mudam as coisas, transformam os objetos, dando-lhes, ali mesmo onde estão, novas características”. Significa dizer também, que a cidade não está pronta e nunca vai estar. São os cidadãos, replicando seus inúmeros eventos individuais e coletivos, que modificam o espaço. Finaliza Santos: “não há evento sem ator, não há evento sem sujeito”. Ao acelerar a sua arma irracionalmente sobre os ciclistas, o Sr. Ricardo – além da desaprovação que repercutiu mundialmente – conseguiu mobilizar toda uma a cidade contra os efeitos nocivos do excesso de carros, e uma constelação de manifestações surgiram em repúdio à intolerância.

Agora, estamos todos convidados a escrever um novo capítulo da mobilidade urbana de Porto Alegre e exercer “essa coisa da cidadania” que muitos não sentiam há muito tempo.

(*) Lucas Panitz é geógrafo e doutorando em Geografia na UFRGS.

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